História

MONTEPIO FILARMÓNICO
ASSOCIAÇÃO DE SOCORROS MÚTUOS


É a mais antiga das associações de socorro mútuo actualmente existente e das primeiras que se organizou em Portugal. Fundado em 1834 por João Alberto Rodrigues Costa, com o objectivo de ajudar os músicos em dificuldades financeiras. Nasceu e cresceu no seio da Irmandade de Santa Cecília.
Foi dentro da Irmandade, das mais antigas do país, precursora do sindicalismo em Portugal, que partiu a ideia de criar uma associação que protegesse os músicos nas suas dificuldades, e desde essa data que caminham juntas e partilham a mesma sede.

João Alberto Rodrigues Costa apresentou a sua ideia de formação de uma associação que alargasse o âmbito de Irmandade e que pudesse apoiar todos os músicos em dificuldades financeiras. Para isso elaborou um projecto de estatutos que deu a conhecer a alguns dos seus companheiros da Irmandade e, que depois de discutidos foram aprovados no dia 21 de Abril de 1834. Foram impressos com o título de: “ Compromisso do Montepio Filarmónico, instalado aos 4 de Novembro de 1834” e compunha-se de sete artigos. Começaram com 37 sócios e um capital de 187$300 reis.

Rapidamente o número de sócios foi-se alargando, pois transitavam da Irmandade de Santa Cecília. Porém, mantinham-se nas duas instituições, porque era obrigatório serem irmãos da Irmandade para pertencerem ao Montepio, e vice-versa. Desta forma as duas instituições se encontram estreitamente ligadas até aos nossos dias. Mas, como não era uma obrigação oficial, foram os estatutos reformados em 1843, para contemplar essa obrigatoriedade, passando a ter oitenta artigos, que foram aprovados em 20 de Maio e sancionados superiormente por alvará régio de 31 de Agosto.

Além dos Estatutos, havia um Regulamento Interno, com 98 artigos, não sujeito à sanção régia, onde se desenvolvia a matéria contida nos estatutos e que regulava o trabalho profissional dos sócios: Proibindo-os a convidarem estranhos ao Montepio para os serviços religiosos; a tomarem parte em serviços dirigidos por estranhos; a estabelecer preços mínimos, etc.

Nesta altura, com 9 anos de existência, contavam-se já 161 sócios e um saldo em cofre de 5.143$260 reis.

Após esta reforma dos estatutos, o seu mentor empenhou-se na criação de uma outra associação, a qual já existia secretamente sob a capa de loja maçónica denominada “S. João”, que passou a designar-se “Associação Música Vinte e Quatro de Junho”, e mais tarde, uma outra “Academia Melpomenense” em Fevereiro de 1846, dependente do Montepio e “destinada a dar concertos e saraus para os artistas se exercitarem na execução e composição” e que deu óptimos frutos. Mudou em 1855 para “Academia Real dos Professores de Música” porque o rei D. Fernando, então regente, se tornou seu protector, por alvará de 22 de Dezembro de 1854, contribuindo com a importante mensalidade de 22.500 reis. No entanto e apesar de todo este incremento, os cofres do Montepio ressentiam-se mas, a má camaradagem entre os seus membros, levou à sua extinção, por unanimidade de votos em assembleia-geral a 11 de Julho de 1861.

Uma coincidência curiosa: A Academia esteve instalada no palácio Barcelinhos, na Rua Nova do Almada, onde havia estado o Convento do Espírito Santo da Pedreira e onde se instituiu a Irmandade de Santa Cecília.
 
A reforma de 1843 deveu-se, também, a desinteligências com a Empresa do Teatro de S. Carlos que queria impor restrições aos artistas que faziam parte da sua orquestra. Daí a necessidade de criar uma comissão de cinco elementos para negociar com a referida empresa, e que conduziu a um acordo favorável aos cofres do Montepio.

Mais tarde, as vicissitudes da vida pública, as crises políticas e as epidemias criaram inúmeras dificuldades, associadas a divergências provocadas por normas internas que cerceavam o trabalho de alguns colegas em favor de outros, e que provocou uma cisão na Associação e ao abandono de cargos directivos do fundador.

Essa divisão que ficou conhecida como o caso dos izabelões e quase levava ao desaparecimento do Montepio, foi devida a uma lei interna que não protegia de igual modo todos os associados.

A lei dos vínculos, assim se chamava: Os associados que, após um concurso e pagando uma determinada quantia para o cofre, ganhavam um lugar e assim ficavam com vínculo a um ou mais teatros, o que causava mal estar entre os que não o possuíam. Dessa forma, quem detinha o vínculo podia sempre escolher onde trabalhar e só sobrava o que não conseguiam fazer para os não vinculados.

Como consequência dessa lei, a indignação levou à demissão de alguns sócios e a criação de outra Associação “Irmandade Santa Izabel, Rainha de Portugal”, daí o nome de isabelões. Aos que ficaram fiéis ao Montepio, chamaram-lhes cecilianos.

Ora, como em todas as guerras, há vencedores e vencidos, havia que encontrar uma forma de não sacrificar mais a classe dos músicos, porque a sorte de uns é a ruína dos outros, tratou o Montepio de encontrar uma forma de acabar com esse dilema, porque era a Associação que mais perdia, e as afrontas entre os rivais quase chegavam a vias de facto.

Assim, tratou o Montepio de diligenciar a recuperação do Teatro D. Maria, que tinha passado para os isabelões. O comissário régio do teatro propôs um concurso entre as duas associações para medir a qualidade de execução de uma obra encomendada para o efeito, e que seria executada à primeira vista.

Aceite a proposta, a maior experiência e desenvolvimento dos cecilianos, fiéis ao Montepio, garantiu-lhes a vitória, assim como o fim do conflito.

Outras dificuldades surgiram, e o cofre ia sofrendo com as doenças da cólera em 1856 e a febre amarela em 1857, mas que mostrou a vitalidade social do Montepio com a entrega dos seus dirigentes no auxílio dos necessitados, aos quais prestou assistência, em permanência durante todo o tempo em que durou a epidemia, revezando-se para que houvesse sempre alguém pronto a socorrer os associados que necessitassem.

Alguns anos após estes acontecimentos, voltou o Montepio a prosperar, graças ao trabalho intenso e eficaz de vários dirigentes, tais como o padre Joaquim Vital da Cunha Sargedas, João Pedro Augusto Rio de Carvalho.

Após a morte do seu fundador em 1870, e passados alguns anos, o Montepio voltou a sofrer a ameaça de extinção, devido a dissidências internas, cujas causas deram origem a uma evolução artística em Lisboa, com a vinda de músicos estrangeiros de grande nível. Os Estatutos foram reformados em 1880, produzindo um acentuado progresso material, mas, a qualidade artística ia decaindo por falta de concorrência.

Anos mais tarde, nova decadência ameaça a vida da instituição, causada pelo abandono de alguns dirigentes e, deixando que um empregado se aproveitasse para desviar fundos. Valeu a perspicácia do sócio Júlio da Cunha Taborda que, ao analisar as contas descobriu que, sendo as receitas superiores às despesas, os fundos teriam que subir, e assim foi descoberta uma fraude de vários contos de reis.

Júlio Taborda dá novo impulso aos cofres do Montepio e é homenageado em 1905, com a colocação do seu retrato na sala de reuniões, em sessão solene com a presença de figuras notáveis.

Nesse mesmo ano, os cofres do Montepio são reforçados com os bens da Associação dos Professores de Música de Lisboa, que se havia dissolvido e que valiam 1.436$665 reis, assim como os da Associação de Socorros Mútuos Filial anexa à mesma Associação.

Em 1908, o sócio Joaquim Maria de Sousa deixou, em testamento, um importante legado ao Montepio, tornando-se no grande benemérito da Associação, a quem muito devemos, cujo retrato figura na sala de reuniões.

Mais tarde, em 1915 e por escritura de 23 de Dezembro, foi doada ao Montepio a Caixa de Socorro a Músicos Pobres, fundada em 1 de Janeiro de 1906, benemérita iniciativa de Michel Ângelo Lambertini, brilhante pianista que prestou inúmeros e relevantes serviços a toda a classe musical, que lhe deve estar grata.

Até ao final do século, altos e baixos sucederam-se, mas o Montepio foi realizando a sua missão, sendo de destacar o investimento efectuado em 1991 na compra de 3 apartamentos em Vila Nova de Milfontes com o objectivo de proporcionar aos sócios a permanência neste destino turístico a custos reduzidos. Importa salientar o bom trabalho de gestão em todo este processo pela Direcção presidida por Carlos da Conceição Saraiva e especialmente por Atilio Dias Pereira.

Alteraram-se os Estatutos para acompanhar as modificações dos ciclos políticos e sociais, mas pautando a sua actuação pela salvaguarda dos interesses dos associados.